terça-feira, 30 de agosto de 2016

1.08- Diferenças culturais existem! Metrô no Brasil vs Metrô de Londres que o digam!

E aí pessoal, beleza pura com vocês?
O post de hoje é para comentar que, passadas 3 semanas em Londres, fica impossível não perceber que as diferenças culturais realmente existem.

Londres é uma cidade fantástica por ser absurdamente multicultural. É uma cidade onde o que você menos encontra são ingleses propriamente ditos. A grande maioria das pessoas que você encontra nas ruas são imigrantes, ou descendentes deles. A vizinhança onde vivo é dominada por imigrantes. Árabes, latinos, poloneses, etc... Não é à toa que Londres foi uma das poucas cidades do Reino Unido que votou majoritariamente contra a saída dos ingleses da União Europeia. Em Londres, não seria tão exagerado dizer que o cidadão "100% inglês" que é o estranho no ninho e a minoria.

Porém, não se engane. O fato de ser talvez a cidade mais multicultural e harmônica do mundo não evita que os londrinos, de onde quer que tenham vindo, tenham criado uma cultura própria da cidade e tenham influência da cultura tradicional inglesa.
Dizem que é nos detalhes que estão as grandes diferenças, e você descobrirá ao viver em outro país que esta é talvez a maior das verdades. Quer um exemplo?

Recentemente estava eu numa estação de metrô durante o Carnaval de Notting Hill. Por conta do evento, as placas sinalizadoras das plataformas dentro da estação estavam mudadas. Como não sabia para qual plataforma deveria ir, resolvi perguntar a dois seguranças que estavam do lado das catracas. Como os dois estavam entretidos conversando, fiz o que quase todo o brasileiro faz inconscientemente: toquei levemente no braço de um deles com o dedo para atrair sua atenção, e educadamente perguntei para que lado eu deveria ir.
O segurança respondeu prontamente de forma super educada me indicando o lugar, super atencioso mesmo. Quando eu já estava para seguir meu caminho, ele me chamou - sem me tocar - e me advertiu, em inglês: "Jovem, neste país, jamais toque em alguém como você fez. Isso soará desrespeitoso e pode te colocar em problemas". Eu fiquei sem ação, só consegui responder "I'm sorry", e ele novamente me interrompeu educadamente "Sem problemas, eu entendo. Você deve ser novo aqui, mas tome cuidado com isso."

Brasileiros são normalmente super expansivos, e mesmo que por instinto, usam contato físico pra tudo, seja pra chamar a atenção cutucando no ombro, braço, costas dos demais, seja para se despedir com um abraço caloroso de colegas (não haverá esse calor recíproco no abraço do londrino ou do europeu em geral; você até sente o desconforto por parte dele apesar de ele não falar), seja para dar um beijo no rosto de uma moça que acaba de conhecer... coisas naturais para nós, mas tidas como invasivas e abusivas por alguns nestas bandas.


E eu citei o contato físico, mas tem também o contato visual. Ainda citando como exemplo o metrô, existe algo como uma regra social subliminar: As pessoas não se olham, nem querem ser olhadas no metrô. E ninguém melhor que o brasileiro acostumado com o metrô de São Paulo para sentir na pele a diferença. Quem vive aqui durante a viagem para o metrô lê jornal, olha para o celular, finge que dorme, olha para o teto, para um ponto imaginário, enfim, faz qualquer coisa para não se pegar olhando pra alguém (ou ser pego olhando pra alguém).

Apesar de perceber isso logo no primeiro dia em que cheguei, meu lado brasileiro sempre fala mais alto, e vira e mexe olho pra coisas e pessoas que chamam minha atenção. Semana passada, uma mulher entrou no metrô com duas crianças, lindas, parecendo anjos. Olhei sorrindo para uma delas, que estava sorrindo para mim, encantado com a aparência de porcelana da criança. E quando dou por mim, vejo a mãe me fuzilando com os olhos, e quando ela percebeu que eu vi, ela fez questão de virar a criança para a direção dela, mostrando que não tinha gostado. Logicamente esse é um exemplo extremo. Na maioria das vezes, as pessoas apenas se sentem incomodadas, mas não demonstram. E não se pode generalizar: existem aqueles que não estão nem aí pra essas convenções sociais. Mas essas convenções implícitas existem aqui, como em qualquer lugar do mundo, e não devem ser ignoradas - e muito menos subestimadas.


Aliás, o metrô londrino deveria ser usado para estudos sobre o comportamento humano. Ao contrário do que acontece no metrô de São Paulo onde as leis da física são constantemente desafiadas, o metrô de Londres segue à risca as leis da física, especialmente aquela que diz que "Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo". Muitos londrinos são espaçosos - na visão de um paulista acostumado com o aperto dos metrôs de Sampa, claro. E prezam DEMAIS por sua individualidade. Não importa quão cheio esteja o vagão ou quanta gente esteja esperando na estação para entrar no trem no horário de pico: o londrino irá abrir e ler seu jornal como se estivesse numa sala de estar sim, vai ficar sentado com as pernas cruzadas ou esticadas sim, vai ficar a, no mínimo, um palmo de um outro ser humano sim, vai ficar fixo como um poste em seu lugar sim e não vai encostar nem ser encostado sim. E se você achar ruim, que espere outro metrô, porque ninguém vai abrir mão de seu espaço ou conforto só para que você possa entrar.

Ninguém vai te olhar como coitadinho, nem terão pena por você estar atrasado - até porque estar atrasado nem pega bem em Londres, onde normalmente impera a pontualidade britânica e o planejamento prévio. E nem se atreva sequer a pensar em empurrar alguém para abrir um espaço, nem usar a velha manha paulista de entrar de costas para que as pessoas sejam empurradas naturalmente quando a porta fechar e assim você conquiste seu lugar ao sol, digo, vagão. Você provavelmente será o único a fazê-lo, quebrando um código social, invadindo o espaço do outro e cometendo uma tremenda falta de educação, tudo ao mesmo tempo, e será impossível prever a reação de suas "vítimas".

Isso pode parecer arrogância e frescura do ponto de vista de um brasileiro acostumado a tratar e ser tratado feito gado no transporte coletivo, e responder com o famoso "achou ruim, vai de taxi” para quem ainda se incomoda com isso no Brasil. Mas existem vantagens neste comportamento que fariam uma diferença absurda no dia a dia de muitos brasileiros. Vou dar um único exemplo disso, que as mulheres principalmente entenderão mais. Mulheres que são constantemente encoxadas no metrô de São Paulo muitas vezes não tem coragem de reagir nem denunciar, porque sempre vão correr o risco de que se use o argumento de que o metrô estava lotado, e de que não era um abuso sexual, mas sim apenas uma consequência da superlotação, e ainda de ser chamada de frescurenta por dezenas de desconhecidos.

Como esquecer da menina que quase sofreu estupro coletivo no metrô de SP ao reclamar com o cara que a estava encoxando? O cara se fez de vítima, os demais passageiros o apoiaram e ainda gritavam "estupra de verdade pra ela ver a diferença". E quatro rapazes agarraram a menina, que só não foi estuprada porque uma passageira a ajudou a escapar do vagão antes que o pior acontecesse. Lembram disso? Além disso, a lotação impede que as pessoas vejam o que acontece no meio da muvuca e por isso geralmente não há testemunhas, e se a mulher reagir e o homem for cara de pau o suficiente para acusá-la de estar louca, ganha quem falar mais alto e convencer a plateia. No metrô de Londres isso dificilmente aconteceria pois esse espaço entre as pessoas e a cultura do "não me toque" provavelmente coíbe esse tipo de abuso. Claro que isso deve acontecer também em Londres, pois tarados sempre dão seu jeito de agir, mas ainda que aconteça, haveria mais chance de ficar claro para todos no vagão o que está havendo. A mulher aqui talvez não se sinta tão insegura ou com medo de não acreditarem nela.

Diferenças culturais são importantes exatamente por isso: nos fazem refletir sobre os tipos de vida que vivemos até então e as alternativas que existem mundo a fora.

E você? Já sentiu essas diferenças ou outras? Comenta aí embaixo!

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2 comentários:

  1. Ótimo texto. Eu moro na Inglaterra há 16 anos e tudo o que você falou é bem preciso.

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    Respostas
    1. Fico muito feliz em ler esse feedback, e principalmente por confirmar que não é uma mera impressão de um recém chegado! Você com certeza deve ter muita história pra compartilhar! Adoraria ouvi-las!
      Grande abraço!

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